Há atores que chegam ao palco carregando um papel. Ian Lima chega carregando uma região inteira. Nascido em Itabuna, no coração da antiga Costa do Cacau, no sul da Bahia, ele cresceu à sombra de uma tragédia que mudou a vida de milhares de famílias: a vassoura-de-bruxa, a praga que, a partir do fim dos anos 1980, secou os cacaueiros e as esperanças da terra que Jorge Amado eternizou na literatura.
Aos 28 anos, vivendo em São Paulo desde 2018, Ian transforma essa memória em teatro. “O Menino Grapiúna – monólogo em uma safra”, de sua autoria, nasceu da pesquisa de iniciação científica que ele desenvolveu na Escola Superior de Artes Célia Helena e entrelaça as obras de Jorge Amado, como “Cacau” e “O Menino Grapiúna”, com a história de um menino que cresce entre as fazendas e um dia parte para a cidade grande atrás do teatro. Ficção e testemunho colhidos numa safra só.
A trajetória começou longe dos holofotes, no balé clássico, ainda na Bahia. Em São Paulo, Ian se formou ator no Célia Helena, onde agora conclui a graduação em Artes Cênicas, e estudou a técnica Meisner e a interpretação para câmera. No palco, trabalhou com diretores como Kiko Marques, em “Os Gigantes da Montanha”, de Pirandello, montagem em que foi apontado pela crítica especializada como “o futuro da comédia no cenário teatral do Brasil”, e Marco Antonio Rodrigues, em “O Casamento do Pequeno Burguês”, de Brecht. No cinema, está no elenco do curta “Noite de Jogos”, selecionado para o Espanto Film Fest, no México.
De 16 a 18 de novembro, Ian sobe ao palco do Teatro Célia Helena, em São Paulo, em “A Hora em Que Não Sabíamos Nada Uns dos Outros”, de Peter Handke, espetáculo de formatura da sua turma. É o fim de um ciclo e o começo de outro: o de um artista que, sem padrinhos nem grandes estruturas, decidiu abrir o próprio caminho, usando inclusive a inteligência artificial como ferramenta de produção para organizar a carreira, falar com a imprensa e tirar o monólogo da gaveta, enquanto a criação segue inteiramente dele.
Uma nova geração de artistas nordestinos está ocupando os palcos do país. Ian Lima quer levar com ele a história do cacau, de Itabuna e de todos os meninos grapiúnas que ainda sonham com o teatro.
